Contando presos…uma questão de precisão

Em 2007, quando dava aula na PUC-Campinas, comecei a relembrar algumas histórias de bastidor do jornalismo que vivi, presenciei ou me contaram em um blog que partilhava com os alunos de jornalismo. Esta, abaixo, foi uma delas. Como recentemente o amigo Pedro Fávaro insinuou no FB que o meu ex-editor e figuraça Ruço fazia trolagem com os repórteres, resolvi partilhá-la aqui (até porque o blog não existe mais). Em tempo: os trotes na redação eram comuns, geralmente saudáveis e na maior parte das vezes hilários até para as “vítimas”. E tinham troco (rs). Vamos a história:

NelsonChinalia_ViolenciaNua

“Aqui estou eu de volta, com mais uma história de bastidor. Como nestas histórias vou contar “micos” de muita gente, achei justo contar logo um cuja vítima fui eu. Assim, convidando todos a rirem de mim mesmo agora, talvez ganhe mais moral para contar os micos dos outros depois…

O ano era 1995, eu era repórter do Correio Popular há pouco mais de seis meses. Uma foca sendo adestrada, portanto. Para vocês alunos, que talvez não saibam, é importante ter em mente dois fatos para entender esta história. O primeiro é que uma Redação é um ambiente propício para trotes. Faz parte da tradição e é uma forma de se relaxar da tensão e do estresse diários. Ou talvez seja só uma sacanagem, mesmo.

Seja como for, em toda redação há jornalistas dispostos a enganar os colegas de uma forma (mais ou menos) divertida. A do Correio não era exceção. Eu já havia escapado brilhantemente de um trote transformando uma mentira em manchete do jornal (mas isso é história para outra hora) e portanto estava no topo da lista do Ruço para ser sacaneado.

Este é o outro fato a ser sabido: o Ruço – apelido do jornalista Álvaro Luís Kassab, atualmente na Assessoria de Imprensa da Unicamp – além de excelente editor era (e é) um ótimo ator. Capaz de imitar vozes ao telefone, chorar espontaneamente quando quer, inventar uma história com detalhes convincentes e fazer tudo isso ao mesmo tempo e com uma cara absurdamente deslavada.

Voltemos a 1995. Houve uma grande rebelião no Complexo Penitenciário de Hortolândia. Eu mesmo fui um dos designados para cobrir, junto com (o atual editor executivo do Correio) Marcelo Pereira e outras feras. O (atual professor da PUC-Campinas) Nelson Chinalia teve uma idéia maravilhosa para encerrar a cobertura do motim. Ciente de que a polícia reunia todos os presos nus no pátio após rebeliões, Nelsão alugou um helicóptero e fez uma foto histórica, que lhe rendeu o prêmio Vladimir Herzog. Apropriadamente batizada por ele de “Violência Nua”, a foto (que obviamente ilustra este texto) ganhou a capa de todos os jornais e algumas das principais revistas do país e inspirou várias similares tiradas em rebeliões posteriores por outros fotojornalistas.

Minha memória da foto, porém, não é tão nobre. Naquela tarde eu acabara de finalizar minhas matérias para o caderno que abordava a rebelião quando Ruço se aproximou de mim pedindo uma tarefa urgente. “A foto do Nelsão foi comprada pelo Estadão e eles precisam saber o número exato de presos na foto. Sabe como é o Estadão com questões de precisão. O Godoy (chefe de redação) pediu para mim, mas eu tenho que fechar o caderno. Você pode contar para mim, por favor?”

Eu, claro, caí na risada: “Ruço, vá catar coquinhos. Que trote mais absurdo, bicho, eu tô ocupado”.

A partir daí Ruço teve uma atuação digna de Oscar. Alternando-se entre berros e choro nervoso, me disse que “onde já se viu achar que no meio do fechamento ele ia ficar dando trote nos outros?”, que se eu não quisesse ele mesmo contava, mas ia atrasar todo o jornal e “eu podia dar essa força para ele”. Depois, aos berros, falou que não aguentava mais trabalhar tanto no jornal, que aquilo era para o Estadão e que podíamos perder a venda da foto, e por fim apelou para a nossa amizade e o meu orgulho: não podia contar com mais ninguém para aquela tarefa, os demais ou estavam ocupados ou não tinham competência para isso, ele não confiava neles, eu bem que podia quebrar o galho dele desta vez.

“Tá bom, Ruço, eu ainda acho que é trote, mas se é tão importante pra você…” e lá fui eu contar os presos. Claro que, quando estava terminando, vi o Ruço escondido atrás da mesa dele, literalmente rolando de rir no chão. Então ele veio até minha mesa tirando sarro e já dizendo: “Ninguém vai acreditar quando eu contar essa! Contar os presos da foto, onde já se viu?”

“Peraí”, eu disse,”já que eu caí mesmo, o mínimo que eu posso fazer é ajudar você a pegar outros e não pagar esse mico sozinho”. E assim foi. Pegamos mais três. Somado à atuação do Ruço, vinha meu depoimento de “eu já contei, mas precisamos ter certeza porque o Estadão é muito chato com essas coisas”. Meu único consolo é que a colega V.Z., que por sinal até pouco tempo trabalhava no Estado, contou também e fez pior: usou régua, contou as filas individualmente na horizontal e somou com calculadora. Depois fez a mesma coisa dividindo os presos na vertical para conferir o resultado. Precisão é isso aí!

O único problema é que depois de um tempo esqueci quantos presos havia na foto. Será que você poderia contar para mim?”

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