Um tributinho a Rubem Alves – tira publicada no Correio Popular desta terça (22/7/2014)

20140722_ter_s804_RubemAlves_tributo

Meu primeiro contato com Rubem Alves foi na faculdade, quando editava o jornal do Diretório Central dos Estudantes. Meu amigo Jonas, então diretor de comunicação do DCE, conhecia Rubem e inicialmente pensamos em uma entrevista, mas a agenda corrida dele acabou inviabilizando a primeira ideia… em vez disso, Rubem nos mandou uma série de crônicas, disponibilizando-as para publicação. “A Lei de Charlie Brown” foi a escolhida, baseada em uma tirinha de Charlie Schulz – a tira em si era genial e refletia os pensamentos e críticas do próprio Rubem, que os aprofundava no texto. Tive uma ótima primeira impressão, confesso, não apenas pelas ideias do filósofo/educador/teólogo, mas porque qualquer um que saiba apreciar Snoopy e companhia já atrai minha simpatia…

Anos mais tarde, trabalhando no Correio Popular (e publicando colunas sobre quadrinhos no Caderno C, onde também viria a reportar por um período e depois publicar minhas tiras), tive a oportunidade de entrevistá-lo diversas vezes e, em uma ocasião memorável, estive na abertura do bar dele, um local para comidas, bebidas e desfile de ideias – e de eventuais candidatos a artistas grandes egos também (rs).

As entrevistas e bate-papos com Rubem costumavam ser enriquecedoras, bem como boa parte – a maior partem, arrisco afirmar – de seus textos, opiniões e frases marcantes. Nos encontramos também em um ou dois seminários como colegas (que pretensão a minha): ele exibia seus conhecimentos sobre o mundo a centenas de professores, eu falava a um número consideravelmente menor sobre como usar quadrinhos em sala de aula.

Fiz nesta época, inclusive, uma tirinha na qual (minha personagem) Niquinha citava um pensamento dele – exposto aos participantes do evento – e Rubem, posteriormente, pediu para que enviasse a ele o original por e-mail. Fiquei feliz com o carinho e até sonhei com a crônica “A lei de Niquinha” (rs), que permaneceu nos meus sonhos.

Quando deixei de ser repórter e editor do Correio e passei a me dedicar as aulas que ministrava na PUC-Campinas e à assessoria de imprensa (sem abandonar os quadrinhos,claro) , entre os clientes do escritório estava a Editora Papirus, uma das maiores publicadoras do autor, e assim os caminhos dele e os meus voltaram a se cruzar. Tanto eu como minha irmã – e, se não me falha a memora, alguns de nossos funcionários também – o entrevistamos em outras oportunidades, e como assessoria tivemos a chance de conhecer um lado mais pessoal de Rubem, não o erudito, a estrela, mas a pessoa, o ser humano. Um senhor simpático, muitas vezes lembrando o avô que todos gostaríamos de ter, e que falava também de outros assuntos mais triviais, que revelava outras paixões e interesses.

Também em algum momento deste longo período, lembro-me de um episódio triste com o jornalista e colega Bruno Ribeiro do Caderno C. Rubem sentiu-se ofendido por uma matéria e respondeu em uma crônica, gerando uma polêmica que muitos lembram. Desnecessária, em minha opinião. Tanto Rubem quanto Bruno sabem – ou souberam na época, em conversas que tivemos – o que pensei do assunto, então também considero desnecessário esticar este parágrafo. Ele existe apenas porque os que se vão não se tornam infalíveis: errar é humano e creio que Rubem Alves era um grande ser humano. Como tal também errava.

Mas muito maiores, inegavelmente, eram seus acertos, pensamentos, ideias, contribuições para o restante dos seres humanos.

Já há algum tempo vinha acompanhando de longe a viagem para qual Rubem Alves se preparava, a metamorfose pela qual todas nossas vidas um dia passarão. No último sábado, quando fiquei sabendo da ida do grande autor para o plano espiritual, pensei que devia – no sentido de quem tem um débito mesmo – prestar uma pequena homenagem, um tributo a ele.

Lembrei-me do gosto de Rubem pelos quadrinhos e do meu gosto pelas frases dele, e assim surgiu esta tira, um trabalho conjunto que nunca realizamos juntos, mas aí está. Tenho certeza que Rubem continuará escrevendo e produzindo muito do lado de lá e – ao contrário do que fiz quando era mais jovem – não espero que esta tira se transforme em uma crônica de Rubem Alves. Espero, porém, que gere um sorriso na alma do grande mestre e que, quem sabe, ajude seus leitores a relembrarem dele e plante na mente daqueles que não o conhecem uma sementinha de vontade em descobri-lo.

DJota Carvalho

Anúncios
Esse post foi publicado em Só Dando Gizada Reloaded e marcado . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s